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Eu escuto, tu escutas

Que nós estamos vivendo em um mundo barulhento, isso não temos mais o que discutir e que cada vez mais estamos ouvindo somente os ruídos e os ecos externos, de tudo o que está aí fora também não deixa de ser realidade. Quando Deus pede para o povo de Israel escutar, lá no Livro do Êxodo, dá a impressão de que o povo não entendia muito bem o que era isso. Ele precisou escrever. Existe uma grande diferença entre ouvir e escutar. O que andamos fazendo por aí é ouvir os outros falarem. Ouvir é conceber que o conteúdo que me é falado não acrescenta nada. É o ato de não se envolver na comunicação. Deus no princípio falava muito com seu povo, mas eles estavam tão cheios das suas próprias convicções, reclamações e conhecimentos, que tão pouco ouvia, imagina escutar! E isso desde Adão e Eva até hoje.

Por várias vezes percebo nas celebrações e nas reuniões que participo o povo distante. Distante em pensamentos e distantes no olhar, nos gestos e nas atitudes. Nós desaprendemos com o tempo a não mais escutar, apenas ouvir. Quem apenas ouve não compreende a mensagem. E fiquem pasmados, o fato de ouvir é muito característico do sexo masculino. O homem, na sua infância não é induzido e educado para o diálogo; uma conversinha de alguns minutos. A natureza masculina cria uma espécie de tampão auricular onde as palavras não entram, até mesmo, se forem desenhadas e pintadas. Salvo aqui aqueles que foram educados para escutar em casa ou na faculdade.

Agora escutar exige um movimento externo que é o de dar tempo e atenção a quem fala sem cortar seu raciocínio, sem se intrometer no assunto com comparações baratas e rasas demais. Para dar tempo e atenção a quem fala devemos estar preparados a baixar o volume interno do nosso som. É o outro quem fala! É o outro quem está sentindo! É o outro e não eu! Eu escuto, apenas. O outro movimento é interno, onde eu devo estar em harmonia com tudo o que está em mim e educar toda forma de pensamento que passa pela cabeça naquele momento. É eu ceder espaço no meu interior para o conteúdo oferecido por quem fala. Isso é uma arte que deve ser apreendida na sala de aula, onde teríamos alunos mais inteligentes; nos grupos de amizade, onde valorizaríamos bons assuntos e não perderíamos tempo com fofocas e assuntos inúteis; na vida familiar, quanto mais a gente escuta mais se conhece, por outro lado o quanto mais não queremos ouvir o barulho interior mais falamos do exterior que curiosamente será a vida dos outros. 

Ao escutar participaríamos mais ativamente da vida e das suas diversas expressões. Esta arte está mais vinculada ao sexo feminino. As mulheres sabem escutar muito mais que os homens. 
A arte de escutar bem é um dom de todo ser humano. Com esta ideia todos nós temos a capacidade de escutar. Cristo foi o maior terapeuta da História da humanidade pelo fato de que Ele sabia escutar as pessoas através de um sorriso, um olhar, um sintoma de dor, um mau humor, um pecado. Nem sempre a arte de escutar se dá só por palavras: é um todo. E o mais incrível, Jesus escutava a Deus. Por que será que muitos não escutam mais a Deus?

Quando eu começo a te escutar tu também me escutas. Ao escutar o outro e silenciar o Eu interior, a gente se conhece melhor, reorganiza-se interiormente e tem a bela oportunidade de permitir que o outro se conheça ao falar do que sente. Por isso vamos ouvir mais, conhecer mais e permitir que os sons do nosso interior não se manifestem apenas nos sentimentos, nos ressentimentos, nas mágoas e no silencioso gesto de ignorar; o que as palavras podem dizer.

 

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