Foto: JATV

Moradores da Tifa Berlanda, no Distrito de Passo Mando, em Taió, foram surpreendidos no início da noite de segunda-feira (07), após operações no canal da PCH Rudolf. O canal da Pequena Hidrelétrica já teve um rompimento no mês de julho e causou prejuízos a moradores da localidade.

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Um laudo técnico elaborado por especialistas de Blumenau indica falhas graves no projeto. O relatório da vistoria tem 62 páginas e é assinado por um engenheiro civil, florestal e um geólogo. O documento foi produzido com base em uma visita ao local. Eles citam que as residências da localidade estão expostas a riscos.

Constataram-se diversas interferências sobre áreas legalmente protegidas de curso hídrico natural, em decorrência do traçado e implantação do canal alimentador.

Conforme os técnicos, no momento da visita, os trabalhadores não estavam utilizando Equipamentos de Proteção Individual – EPI e ou Equipamentos de Proteção Coletiva – EPC. Também não existia placa da empresa e de engenheiro responsável pelo empreendimento.

O relatório informa que a equipe de vistoria não obteve acesso a Anotação de Responsabilidade Técnica – ART do profissional habilitado e responsável pelos projetos e execução do empreendimento. Os técnicos não obtiveram também acesso a documentos obrigatórios ao início das obras, como por exemplo o Alvará de Construção e as Licenças Ambientais (Licença Prévia, Licença de Instalação e Licença de Operação), a fim de se verificar sobre seus respectivos cumprimentos e condicionantes.

O comprometimento generalizado da estanqueidade do canal, com inúmeros vazamentos em toda sua extensão concretada foi uma constatação dos técnicos, que ainda destacam que o problema na estanqueidade do canal poderá comprometer a estabilidade da encosta pelo excesso de umidade percolada, além do desperdício das águas.

O laudo informa que a estanqueidade foi prejudicada, também, devido às paredes laterais do canal alimentador terem sido concretadas em duas fases distintas (parte superior e inferior), prejudicando a aderência do concreto entre as duas estruturas, infiltração e vazamentos em toda extensão.

Percebeu-se que o barramento do Ribeirão das Pedras para geração de energia deriva quase a totalidade das águas, comprometendo a fauna local no trecho derivado, afirmam os técnicos.

O relatório destacou que ao longo desse ribeirão existem outras PCH em atividade, utilizando-se das mesmas águas a montante, não sendo reconhecido suas particularidades no momento da vistoria, que se ateve a PCH Rudolf.

Na extensão do canal alimentador com obra de concreto foram identificadas diversas patologias construtivas. Essas patologias citadas no relatório consistem em trincas, fissuras, juntas de dilatação, falta de armadura, engasgamento, vazamentos, geometria, entre outros.

Na extensão (segmento) do canal escavado a céu-aberto em grande profundidade, perceberam-se desestabilização dos taludes, deslizamentos, degraus de abatimento a montante da obra, além da falta de dispositivos adequados de drenagem e revegetação dos cortes/aterros formados.

Os profissionais relatam ainda fatores que ocasionam instabilidades em grande área da encosta, devido às escavações profundas em seu sopé, podendo ocasionar movimentações com risco de atingimento residências.

Conforme o laudo, o corte profundo do terreno para construção do canal alimentador, bem como a alteração do nível freático na rampa da encosta, originada pelo fluxo de águas para alimentação da usina hidrelétrica, tende a gerar problemas de ordem geotécnica, a exemplo dos deslizamentos e degraus de abatimento observados nos terrenos a montante do canal.

Aparentemente a ferragem (armadura) do segmento do canal concretado é insuficiente para absorver os esforços/cargas operacionais, evidenciando-se no segmento colapsado que aparentemente não existe armadura transversal que engaste a laje do piso com as paredes laterais.

Moradores da localidade chamaram o Jornal A Tribuna do Vale na noite de segunda-feira, dia 07, para expressarem revolta após o canal voltar a operar.

Rosane Wisnieski Schmtz foi atingida pelo rompimento e hoje convive com o medo. Ela aguarda com outros moradores um acordo com a empresa para reparar os danos.

“Ficamos sabendo que tinha água dentro do canal porque um vizinho nos mandou uma mensagem dizendo que estava escorrendo muita água nos tubos deles. Nós ficamos com medo. Então eu e meu sogro pegamos a lanterna, fomos lá em cima do morro onde há um declínio de barro, onde conseguimos subir e vimos que o canal realmente estava com água, cerca de 1,5m. Viemos para casa, começamos a avisar os vizinhos que podíamos avisar. E uns 40 minutos depois o seu Vilmar, que é nosso vizinho, veio falar com a gente que tinha ido lá ver o canal e já estava com quase 3m. Então o nível está subindo. Estamos com medo, essa obra tinha que estar interditada”, comenta Rosane.

A moradora afirma que ninguém foi informado pela empresa de que a água iria retornar ao canal “Não recebemos nenhum tipo de aviso, foi uma surpresa. Conversamos com os vizinhos, chamamos as autoridades, conversamos com os advogados, sendo que eles estão presentes o tempo todo ajudando a gente. Entramos em contato com a defesa civil e entramos em contato com a mídia para nos ajudar nisso”, disse.

A Fatma não chegou a oficializar o embargo da obra. O órgão teria apenas comunicado verbalmente a proibição das manobras na hidrelétrica enquanto aguardava adequações no projeto.

A empresa responsável pela PCH Rudolf afirmou que está em dia com suas obrigações legais e ambientais e garante que reparos foram feitos para reforçar vigorosamente a estrutura na área afetada e por toda extensão do canal, construindo aterros externos nas duas laterais, instalando tencionadores metálicos na parte superior, reforçando a segurança entre as duas paredes.

Em nota, a empresa ainda afirma estar cumprindo com a legislação e que mantém permanentemente o diálogo com as famílias que vivem próximas ao canal.

Na terça-feira, 08, a Promotora de Justiça Raísa Carvalho Simões Rollin, entrou em contato com os responsáveis e orientou a paralisação das obras.

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