Foto: Divulgação

Quando se fala em meteorologia na região, o primeiro nome que provavelmente vem à cabeça das pessoas é Ronaldo Coutinho. Afinal, quem já não ouviu a expressão: ‘Da Climaterra, Ronaldo Coutinho’.

Publicidade

Famoso por trazer a previsão através do rádio há anos, Coutinho não é meteorologista como alguns devem pensar. Ele é agrônomo e há pelo menos 30 anos se dedica a análises do clima e da previsão do tempo.

Recentemente Coutinho foi atacado nas redes sociais, onde foi chamado de alarmista e até mesmo de terrorista. Muitos não quiseram acreditar na previsão de uma enchente de grande proporção no Alto Vale, prevista por Ronaldo na semana anterior. Isso teria sido o motivo dos ataques.
Uma emissora de rádio da cidade de Taió, chegou a lançar uma publicação em seu portal na internet com a seguinte pergunta “Você acredita na previsão do Coutinho?”.

Dias após as previsões de Coutinho terem se confirmado, o Jornal A Tribuna do Vale realizou uma entrevista exclusiva com o agrônomo, que você pode conferir a seguir.

JATV: Como surgiu o interesse pela meteorologia, apesar do fato de sua profissão ser agrônomo?
Coutinho: Desde os 12 anos de idade eu já tinha interesse por coisas do tempo. Anotava a temperatura, acompanhava chuvas no centro da capital, lia coisas sobre o clima, sempre bisbilhotando. Fiz agronomia e não meteorologia na época porque não tinha e também sou muito ruim em matemática e meteorologia é pura matemática e física. É um curso dificílimo de se fazer.

JATV: Em sua opinião, a precisão das análises climáticas deve estar fundamentada em que?
Coutinho: Vejo que hoje não é só questão de saber física e matemática. Acredito que a meteorologia poderia até ser dividida, em quem faz a pesquisa, que então precisa ir à fundo nisso e para quem vai para a parte da previsão. Pois na previsão do tempo do dia a dia você não usa nada de cálculo, apenas interpretação de modelos, que é a parte onde você olha o que indica o vento, a chuva e tudo mais, assim você vai tentar demonstrar o que irá se comportar na atmosfera, em tal dia e horário. E para isso você não usa matemática nenhuma, ela já está pronta. Fiz agronomia porque era o mais próximo desse conhecimento, e no estágio de conclusão de curso eu estava na antiga Epasc, que hoje é Epagri, onde na época era o Márcio Sora, o primeiro que fazia previsão do tempo em Santa Catarina pelas rádios e um astrônomo e autodidata, que já é falecido. Isso foi o primeiro que eu vi de previsão do tempo, mas na época que eles faziam era um milagre conseguir fazer previsão do tempo, não tinha nenhum recurso que tem hoje.

JATV: Como foi o início de sua trajetória em previsão do tempo?
Coutinho: Aprendi com o Márcio, enquanto eu fazia o meu estágio de conclusão de curso. O Márcio fazia a previsão do tempo, mas estava para sair para um doutorado na Nova Zelândia e comecei a assumir a previsão do tempo, não lembro qual era a Rádio, mas na época era com o Amilton Reginaldo. Nós recebíamos as coisas por fax, eu fazia com o Romero, o qual foi meu sócio, ficamos por um bom tempo, de 1987 até 1995 na Epagri. Fazia as previsões, eu não era funcionário, trabalhava por vontade própria, não recebia nada. Ficamos fazendo a previsão do tempo direto, nesse período da Epagri, foi criando uma rede grande de pessoas que recebiam em rádio, ou jornal. E através da gente, do Romero, eu, começando com o Márcio, ainda no apoio o Adilson, o Gilson e a Maria de Lurdes, também na Administração o Hugo e o Amilton, foi esse grupo que permitiu a criação do Climer, que depois se transformou no CIRAM. Os mesmos que me criticam hoje, se não fosse o trabalho da gente eles nem estariam ali.

JATV: Você é feliz no que faz?
Coutinho: Sim, faço o que gosto.

JATV: Como a Climaterra é composta?
Coutinho: A Climaterra tem eu como um dos donos e o Bruno que é meteorologista, o qual a gente discute, troca informações, qualquer coisa que esteja fora do normal ele também me avisa e vice-versa, ele não participa da rádio porque na rádio tem que saber falar, tem muitas pessoas que são uns gênios, mas se colocar o microfone na boca não sai nada, então não adianta colocar uma pessoa extremamente competente na área dela se ela não souber falar. Isso nós vemos no concorrente, são sete ou oito, tem dois ou três que não dá, falaram, mas não se sabe o que falou. Mas eles são funcionários públicos, se errarem ou não, o pagamento vem. Se eu colocar uma pessoa que não saiba falar em rádio para divulgar a previsão da Climaterra, perderei meus clientes em um mês, então não adianta, tem que ser comigo, já criou o hábito. Hoje você não precisa estar junto, pela internet você troca informações até com o Japão.

JATV: Atualmente você vem sendo bastante criticado, sendo chamado de muitas coisas, principalmente quando há previsão de enchente. Em sua opinião, por que as pessoas fazem esses comentários?
Coutinho: É uma boa pergunta, acredito que alguns por medo de fazerem a mesma coisa que nós. Pois quando se avisa de uma enchente, tem que ter a responsabilidade de saber que é uma coisa que é previsão, não se pode achar que qualquer chuva vai dar enchente. Tem chuva que sabemos que não vai dar enchente e já tem outras situações que entendemos que vai, e ainda, às vezes pode dar, mas pequena, que não se deve alardear, em função de que o número de pessoas atingidas é quase nenhum.

Agora, quando se vê um quadro que está indicando muita chuva, a possibilidade de isso acontecer é muito alta. Aí não vai avisar, pensando que se não der o pessoal vai reclamar porque tirou as coisas de casa? A função da gente é dizer o seguinte: vai chover tanto; as represas estão cheias; a enchente pode ser semelhante ou maior que tal ano, então aconselho o pessoal que mora em tal lugar a tirar as coisas. Veja bem, não estou mandando tirarem, estou dizendo que é o ideal, e a decisão será da pessoa, fica a critério, se prefere gastar tempo e um dinheiro ‘x’ para evitar enchente, e ainda se não der, pode fazer a faxina que deveria ser feita em algum momento, se reorganiza. Perdeu mil reais, digamos assim, em compensação não perdeu nada porque se desse a enchente já estava preparado.

JATV: Neste período de previsões do tempo, você soube de algum caso específico que através de sua previsão o pior foi evitado?
Coutinho: Tem o caso de um comerciante em Ituporanga, ele gastou 15 mil reais para tirar as coisas dele da loja e a enchente chegou na loja dele, se ele não tivesse tirado, poderia ter perdido de 500 mil a 1 milhão de reais, é nesse sentido que me refiro.

Eu atendo algumas lojas de Rio do Sul, e um exemplo é a Neilar. Em 2011 eles não nos conheciam ainda e o pessoal foi enrolando em dizer a cota, que foi subindo e quando chegou em determinado ponto ele não pôde mais tirar, veio a enchente e deu 3 milhões de reais de prejuízo, quase que ele entrou em falência. Então, deve-se ter a responsabilidade de saber primeiro esses casos. Igual, me chamaram de terrorista e tudo mais, mas fizeram exatamente o que eu havia falado, com a diferença que falei na quinta e sexta, e eles fizeram isso horas antes da enchente, isso não é prevenção. Prevenção é você fazer a população se prevenir muito tempo antes para permitir que o pessoal tire as coisas com tempo bom, e não embaixo de chuva, não às pressas. Um pessoal amigo meu alugou uma casa, tirou tudo da casa deles e foi morar em uma casa no alto, fez isso três dias antes da enchente vir, a casa dele hoje está com água até o telhado. Mas se tivesse seguido rigidamente o que eles falam, talvez ele não conseguisse tirar tudo ou arranjar um local para ficar. Já em Blumenau, por exemplo, como eles conseguiram fechar a barragem de José Boiutex, o rio não chegou onde eu esperava, que são os 12 metros, lá chegou perto de 9, porque a represa funcionou e a chuva não foi exatamente o que imaginávamos. Teve gente que nos ouviu e tirou tudo, e vou dizer para não tirar? Porque tem gente em Blumenau que tira somente seis horas antes, o que você faz em seis horas?

JATV: Referente aos órgãos que se envolvem em uma enchente, que prestam serviços, você acredita que eles estão prestando um serviço correto? Qual sua opinião sobre críticas direcionadas à Defesa Civil na questão de abertura de comportas e canal extravasor?
Coutinho: Acredito que nessa parte eles fizeram um bom trabalho, talvez uma abertura ou um fechamento um pouco mais cedo, mas no geral, tanto que na primeira etapa da chuva praticamente não teve nenhum problema pelo manejo das represas. E como as represas estavam bem vazias, conseguiram fechar e abrir na hora mais ou menos certa. Nessa segunda etapa não deu certo porque a represa estava cheia, ela perdeu a função, depois que verte não tem mais controle da água.

O problema da Defesa Civil, que vejo, é a prevenção, de se antecipar ao evento, principalmente cheia, e não avisar em cima da hora, e os avisos da Defesa Civil são muito complicados, a maioria da população não entende. São termos, maneiras de transmitir ao público que a pessoa lê e não lê. Então, poderiam falar de maneira mais acessível, como por exemplo esses dias saiu: “Cuidado com movimentação de massa”, e uma pessoa perguntou para mim no Twitter o que era isso, expliquei que era deslizamento. Não adianta querer impor uma linguagem técnica de duas mil pessoas para 200 milhões de pessoas. É igual na meteorologia, às vezes sai em um jornal de Blumenau “Um cavado alongado está provocando chuva”, não é mais fácil dizer que uma área de instabilidade está provocando chuva? Então é questão da linguagem.

A falta de linguagem clara, isso tem que ser melhorado. Outra coisa, na época do Coronel Márcio, que foi da Defesa Civil no governo do Luiz Henrique e no começo do Colombo, o que o Coronel Márcio fazia: a Defesa Civil escutava a Climaterra, escutava o CIRAM, escutava INPE, só depois então eles, internamente, elaboravam um aviso. O que se faz hoje é o seguinte: O CIRAM diz que uma pulga vai morrer na esquina, eles vão e replicam, sem nenhuma autocrítica, sem nenhuma transformação da linguagem técnica para uma linguagem para a população.

JATV: Você acredita que sua experiência não é devidamente reconhecida por outros órgãos?
Coutinho: Realmente não escutam a gente e ficam dizendo: “Só escutem as fontes e órgãos oficiais”, eu queria saber qual o selo que São Pedro criou de oficialidade. Não existe. Deveriam falar para escutar os órgãos que trabalham com previsão do tempo, mas não fazem isso porque a Climaterra tem o Ronaldo Coutinho, que é Engenheiro Agrônomo, e fica essa birra. Mas estamos trabalhando há 30 anos, se não fosse o trabalho da gente, nem eles existiriam, não perguntam para nós porque estamos dando aviso.

É igual o Leandro Puchalski, que diz que não fala de cota porque não é hidrologista e não se mete na área. Eu até concordo, realmente ele não saberia dizer quanto que o rio subiria em Rio do Sul, eu só falo de Rio do Sul e Blumenau porque já conhecemos esse rio há muito tempo, de outros rios do estado eu não falo, só digo se haverá enchente ou não, pois não é preciso ser hidrólogo para ver que com 300mm de chuva em uma semana há risco de enchente. Com um volume desse de chuva, a possibilidade de cheia em qualquer rio é muito alta.

Chegaram a um ponto de um tempo atrás fazer um vídeo dizendo que o CIRAM acerta 95% para dois dias e 85% para cinco dias. Então porque as 40 rádios que pagam para mim iriam pagar sendo que poderiam ter essa previsão do CIRAM, tendo esse índice de acerto de graça? Há também uma autocrítica. Encrencam comigo porque não sou formado na área deles e consigo acertar mais do que quem tem o canudo, mas nós já estamos há 30 anos nisso, já temos experiência. No entanto nos chamar de charlatão, isso é chamar a população de burra. Hoje, o agricultor que se orienta através da nossa previsão consegue economizar em um tratamento, consegue plantar ou colher na hora certa, claro que tem vezes que dizemos que vai dar sol, mas vem a chuva e atrapalha o serviço deles. Não há nenhum lugar do mundo que a previsão seja 100% certa o tempo todo, mas hoje se economiza milhões e milhões no estado através da previsão do Coutinho na área da agricultura, que é uma vantagem que levo sobre outros pelo fato de ser agrônomo.

Deixe seu comentário

COMPARTILHAR